UMA MULHER ATORMENTADA
Monólogo de uma mulher que pensa
Eu sou uma mulher com um quilo e meio de cérebro. Eu sou uma mulher de cinquenta e cinco quilos, um metro e cinquenta e oito e um quilo e meio de cérebro. Eu sou uma mulher dominada por um cérebro de um quilo e meio. Eu sou uma mulher que não dorme, porque dentro da minha caixa craniana existe um cérebro que não se cansa de fazer sinapses. Eu sou uma mulher que pensa. Que sabe que pensar é um atributo humano, mas eu sou uma mulher que pensa o incessantemente. Eu sou uma mulher que pensa enquanto dorme, enquanto come, enquanto faz amor. Eu sou uma mulher que sonha que precisa criar os próprios sonhos ou não conseguirá dormir. Eu sou uma mulher que acorda cansada. Eu sou uma mulher cansada. Não, eu sou uma mulher feliz. Eu sou uma mulher ultraprodutiva. Vê como sou feliz? Eu sou uma mulher violenta. Eu sou uma mulher violenta consigo mesma. Eu sou uma mulher que não para de pensar. Agora mesmo estou fazendo sinapses. Eu penso sobre fracasso, sonho, perda, gozo, trabalho, problemas que tive na infância, todas as vezes que errei, as vezes que ainda errarei no futuro. Eu sou uma mulher que cansadamente pensa. Uma mulher que não sabe não pensar. Meu cérebro de um quilo e meio é o músculo mais desenvolvido do meu corpo. Meu cérebro de um quilo e meio seria capaz de suportar o peso do mundo. Meu cérebro de um quilo e meio é Atlas. Meu cérebro de um quilo e meio fica dentro da minha cabeça e me agride. Porque meu cérebro de um quilo e meio está contra mim. Meu cérebro não me deixa me concentrar. Meu cérebro confunde as palavras. Meu cérebro me rouba as palavras todas no momento mais importante do discurso e eu só consigo balbuciar sons sem sentido. Meu cérebro faz de mim jocosa, imatura, frágil, rude. Meu cérebro faz de mim um animal. Meu cérebro que tanto pensa, se cansa de si mesmo e me abandona ao princípio da raça humana. Antes de beijar, se mordia. Meu cérebro me faz parecer um bicho. Descontrolada, instintiva, selvagem. Meu cérebro se cansa e eu tenho que tomar remédios para que ele se sinta saudável. Eu tomo pílulas e pílulas por causa do meu cérebro. Pílulas de diversos tamanhos e cores. Sobretudo pílulas brancas. Meu estômago está ficando machucado por conta do meu cérebro. Por causa do meu cérebro eu esqueço coisas, porque meu cérebro trabalha em outro ritmo que não alcança a memória. Meu cérebro toma decisões antes da minha razão. Meu cérebro age antes da minha fome. Meu cérebro se adianta aos meus desejos. Meu cérebro está à frente do relógio, à frente do calendário. Meu cérebro desconhece as datas. Todo instante é agora. E agora tudo é muito. Tudo é imenso. Tudo é vibrante. Barulhento. Terrivelmente hiperbólico. Sou atormentada pelo meu juízo. Sou atormentada. Vivo nos extremos que meu cérebro permite. Na hiper vigilância cerebral ou ao abandono do mais primordial da natureza humana. Meu cérebro é um corpo próprio. Um corpo estranho dentro de mim. Eu rejeito meu cérebro. Meu cérebro é um parasita que se alojou no meu corpo. Meu cérebro me devora. Vou bater minha cabeça tantas vezes contra a parede que abrirei meu crânio. Finalmente nos veremos eu e ele. E assim, exposto a luz de minha consciência, tenho certeza que ele emudecerá. E pela primeira vez em muito tempo, fará silêncio.
"Photographs From A Guide to Operations on the Brain By Alec Fraser – 1890"


Uau! Já imaginei você falando ele numa cena curta. Maravilhoso amiga.