Um amalgamado de existência
Daqui há um mês faço trinta anos. Não me tornei sábia, nem financeiramente estável. Nem emocionalmente equilibrada. Ainda tenho um pouco de medo do escuro e muito medo do abandono. Ficar sozinha é um pesadelo que tenho desde os sete anos. Antes chorava todo domingo quando o Fantástico dizia que o mundo ia acabar. Hoje não assisto ao Fantástico. Durmo cedo. Todavia, continuo a chorar. E não só aos domingos. Tenho me tornado cada vez menos parecida com meu pai. Antes éramos quase iguais. Hoje me sinto mais eu. Hoje me sinto quase pessoa completa. Penso muito na morte. Esse ano gostei de estar viva. Faz muitos anos que não me sentia assim. Não me lembro da infância com clareza. Muitas memórias eu invento. Invento tantas coisas que por isso me tornei artista. Era isso ou era ser reconhecida como mentirosa. Ainda não sou reconhecida por nada, mas espero que em breve isso mude. Tenho ainda muitos sonhos. Quase tantos que me assusto. Nunca me sonhei idosa. Penso que durarei pouco no mundo. Mas quase sempre me engano. Nunca me preparo para o que vai vir, mas sempre sofro de antecipação. Já tomei tantos remédios nessa vida que acho que se empilhasse pílula em cima de pílula alcançaria o tamanho de um pequeno apartamento. Sempre que olho o céu, os fios atrapalham o rumo das nuvens e isso me deixa triste. Quando pensei em morrer, foi em frente a uma igreja. Foi escrever um livro que me salvou. Hoje me machuco menos que antes. Tropeço menos na rua e também fiz as pazes com parte de quem sou. Espero que aos trinta eu me orgulhe de ser eu. Aprendi recentemente que gosto de Cosmopolitan. Comecei a beber muito tarde. Penso que isso me livrou do vício. Tenho obsessão na ideia de ser melhor. Ser artista e ser quem sou é um amalgamado de existência. Sou mais gentil com os outros que comigo. Perdoo com facilidade. É um pouco de falta de amor próprio, mas como um todo me faz bem. Nunca quis ser mãe, mas tenho vocação para o papel de tia. Gosto do cheiro de bebês. Já li tantos livros que me falta a conta. Ainda assim, pouco sei. Acredito no paradoxo da ignorância. Acredito em cartas de tarot. Acredito em signos. E em palavras de amor. Desconfio de elogios. E pouco me ofendo com ofensas. Gosto de escrever envolvendo animais, porque os julgo mais honestos. Se eu fosse um bicho, eu seria um cão.
