ÚLTIMA VEZ - TIM BERNARDES
Quando você chegou, cabelo cortado de um jeito que nunca vi, camisa branca, calça jeans, corpo igual ao que eu lembrava nu.
Você, ali na minha frente, o impacto de não ser tão diferente. Os sinais do rosto no mesmo lugar. O sorriso igual, com o dente da frente um pouco torto, querendo tomar o lugar do outro de um jeito bonito e discreto.
Na porta da minha casa, você. Uma capsula para o passado. Um tabuleiro e ouija, resgatando os mortos. Você naquela casa onde todos os cômodos conheceram os contornos dos nossos corpos. Sua bunda em cima do fogão. Minhas pernas na pia do banheiro.
Você, ali.
Você que não sabia dos meus quadros novos, da minha espada de São Jorge, do meu novo apreço pela fé nos orixás.
Entra.
Senta no sofá que já dormimos tantas vezes. Bebe no copo que te ofereço. O mesmo que bebi.
Toma um trago. Descansa o corpo. Me fala de ti. Me conta da vida. Me diz o que te aconteceu. Se o futuro que imaginamos parcialmente se cumpriu. Me fala se seu corpo tem uma nova cicatriz.
Me conta tudo.
Te ouço com fome. Com a atenção de um milagre. O reencontro é destino. A separação também.
Você me conta e mexe sua boca. Sua boca que me beijou, lambeu, que proferiu frases de amor, obscenas, desejosas, terríveis, malignas.
“Como é raro pra mim ficar tão à vontade assim com alguém hoje em dia”
Você diz. Eu sou seu passado, você me conhece. Eu v você já temos um passado, te relembro, pego pela mão, levo ao quarto, de volta ao ontem.
Olhos nos olhos, os dois pelados. Abraçados, juntos até o final.
Memória muscular. Ali onde é bom. Pego. Chupo. Lambo. Bebo. Nos esfregamos. Pernas trançadas nesse nunca mais. Tomamos um ao outro com a fome do nunca mais.
Vai ficando doído mexer desse jeito no emocional. Acho que eu que fui tolo de achar que isso agora era só vontade do corpo, de pensar que a gente já tinha se superado.
Eu não sabia mais como era fria a vida sem o seu carinho.
Pelados ali não fizemos mais nada além de silêncio.
Quando esfriou o corpo do desejo, a memória das discussões, das cicatrizes que deixamos um no outro.
E se a melhor opção nessa história é ruim como pode haver algum sentido?
Ele levanta. Veste a cueca azul marinho. Cobre a bunca esplêndida. Veste as calças jeans, o corpo ainda enrijecido, a camisa branca. Me dá um beijo. Parte.
Sem ele eu cresci, cresço.
Sem ele eu sou maior.
Ele vai sem falar nada, pois pra nós já passou até a despedida.
Só separados achamos saída. É que às vezes se escolhe entre amor e alegria na vida.
