Tratado sobre vida
Escrevo para me manter viva. Não é exagero poético, é constatação pura. Escrevo para me manter viva, porque quando não escrevo, não elaboro sentido para a vida e quando começam a me escapar as palavras é mais ou menos o tempo que começa a me escapar o tesão da vida. Tesão, como força de vida, criadora, potente de vontade e querer. Escrevo para não deixar meus instintos de morte, que são muitos, posto que sou humana e não tenho natureza, vencerem a criação.
Foucault disse em um entrevista:
De fato, eu tenho dificuldade em ter a experiência do prazer. O prazer me parece ser de um controle muito difícil. Isso não é tão simples como usufruir das coisas. Eu devo confessar que é meu sonho. Eu gostaria e espero morrer de overdose de prazer, qualquer que seja. Porque eu penso que é muito difícil, e tenho sempre a impressão de não experimentar o verdadeiro prazer, o prazer completo e total; o prazer para mim está ligado à morte.
Experimento criar para provar do prazer, o absoluto prazer que deveria sentir Deus no momento da criação, onde tudo era possível, onde todas as coisas eram prenhes de possibilidades e passíveis de morte. Tudo, na criação, acontece no tempo-espaço do impossível, onde vida e morte se misturam, se unem e se colidem. Escrevo para morrer do prazer imenso de vida que a criação carrega.
Excessivamente escrevo sobre o ofício de escrever, estes são meus tratados de vida. Desvendo neles como continuo existindo apesar de tudo, apesar da falta de sentido que parece a vida, apesar da falta de esperanças que parece acometer meu país, apesar da miséria cultural que assola meu estado, apesar de tudo, continuo escrevendo, porque continuo querendo estar viva.
Quando cessar de escrever, quando cessar minha gana pelas palavras, é porque nada mais vai restar a ser dito. O silêncio, o peremptório silêncio, é o mesmo que a morte.
Escrevamos para criar um novo mundo, novas possibilidades, novos imaginários do que é ser humano, do que é estar e viver no mundo, de como se portar, de como engendrar pensamentos na delicada tessitura social, onde um texto é um ponto.
Cada palavras dita é um desejo, que sejamos então desejosos. E não nos falte coragem para por no mundo nossas palavras.
