TINA
Segurando a filha da minha irmã nos braços, eu sinto que o tempo corre sempre em espiral e o passado sempre dá um jeito de nos alcançar no futuro. Segurando a filha da minha irmã nos braços eu tenho a certeza de que o tempo é uma invenção. Ontem e amanhã são hoje sempre.
Ela dorme ressonando seus barulhinhos de bebê. Eu canto para ela a música de Vanessa da Mata e ela canta para mim seus ruídos de neném. Trocamos melodias e essa é nossa primeira comunicação. Ela não vai se lembrar de nada disso quando for criança e quando ela for adulta, eu espero não esquecer.
Olhando ela em meus braços, vejo-a igual a minha irmã. Emociona-me a ideia de segurar minha irmã mais velha nos braços. Acho bonito pensar que estou pondo minha irmã para dormir. Penso que estou vencendo o tempo, voltando antes da existência e colocando nos braços a criatura que mais ano no mundo.
Minha irmã, que tanto me protegeu, que me preparou para o mundo de tantas formas, agora se reproduziu e eu sinto com ela e sua prole o dever do amor. Amor como legado, sem cobrança ou dívida, amor com necessidade de se multiplicar.
Sou tia, finalmente. Tenho um compromisso com o para sempre.
