Início
49 dias se passaram do início do ano.
As ruas, ainda cobertas de purpurina, agora com menos gente, veem os carros passar. Nenhuma marchinha canta a alegria do feriado semi-eterno. Buzinas, sons de teclado, gente berrando ao telefone. Hoje nem a ladainha dos mortos salva o silêncio. É quinta, é cinza sem ser santa.
Aqui no nordeste a praia se estende como uma promessa do fim de semana, com sorte. A carne bronzeada coberta de roupas corporativas. A boca que beijou, hoje se cala.
Nessa madrugada sonhei com leões. Acordei com medo. Depois do carnaval todas as coisas voltam a rotina.
Minha covardia voltou das férias muito bem alimentada.
O ano começa agora, eles disseram. A vida vai ser diferente, eles disseram. Esse ano tem copa, mas ninguém espera ser muito feliz.
Quando eu tinha 6 anos o Brasil foi penta. Assistíamos a copa numa televisão de tubo. Ronaldo usava o corte mais ousado do mundo, vestia camisa 9 e era dentuço como eu. Na época eu chupava dedo. Mas tudo isso é ultrapassado: a tv de tubo, a vitória do Brasil na copa e minha antiga dentição.
Dessa época nem os dentes tenho mais, tudo é lembrança.
O mundo se refaz. Feliz ano novo, Brasil.
Hora de refazermos nossas promessas.

Uma personagem que também sonha com leões e está sempre flutuando entre o recomeço e o passado é o arcano da Força no tarô. Com os dedos nos dentes da besta e uma lemniscata na cabeça. Paciência e resiliência. Argumenta-se que é o arcano mais corajoso.