Eu, ostra.
Tenho me tornado ostra. Algo muito ínfimo me adentrou há algum tempo e eu, que tenho me tornado casmurra, cada vez mais ensimesmada, introvertida de palavras. Delicadamente, tenho transformado essa coisa em pérola.
É um processo laborioso, silencioso, dolorido.
Tenho engolido calada muito, porque se abro a boca, algo disso que protejo e projeto pode se perder. No medo de essa ínfima preciosidade se perder, tenho sofrido enxovalhos calada. Tenho consentido sem consentir. Tenho tornado-me curva, tenho tornado-me ostra. Enrijecido as costas. Adquirido uma circunferência semi-circular, prostrada em mim mesma. Tenho em mim feito abrigo.
Nesse processo descobri um espaço interno grandioso, capaz de se expandir no silêncio. Dentro de mim, sou quieta. Dentro de mim ecoa um som grave, uma frequência abissal. Dentro de mim, peixes jurássicos nadam tranquilos. Dentro de mim, com muito esforço, se forja uma pérola.
E dói.
Lá fora, o mundo me rebuliça. Joga-me de um lado para o outro, me vira de ponta cabeça. E eu permaneço. Dentro de mim a pressão interna é altíssima. Capaz de forjar um diamante. Eu tenho medo de quando me abrirem, encontrarem apenas areia. Depois de tanto esforço, depois de tanta dor, tanto incômodo, talvez eu não consiga ser nada diferente do que já existe. Talvez eu não consiga transmutar.
Eu, simulacro de ostra, tenho certeza que todo esse incômodo interno forja uma pérola.
