CORPO TERRITÓRIO
Porque meu corpo feminino é um território em disputa. Homens guerreiam nas fronteiras de minha carne pelo domínio de quem sou e eu luto em mim mesma para não ser tomada. Na periferia de minha pele, homens tentam me assaltar. Me usurpar. Me tomar pela força. Impõem sobre mim seus músculos, suas armas, suas palavras, seu poder, sua fala, seu falo.
Homens.
Homens.
Homens.
Onde quer que eu vá o mundo é cheio deles.
Eles, que não conseguem conter as mãos e as palavras em si. Eles que veem o corpo feminino como um território em disputa. Eles que não veem que uma mulher se ocupa. Que uma mulher habita o próprio corpo, que governa seu próprio país de carne e ossos. Homens que nascem com o gene do ditador, que querem dar golpes no meu corpo. Homens que me golpeiam quando menos espero.
Eu sou meu próprio país. Faço minhas regras, estabeleço minha democracia. Permito a visita de estrangeiros. Faço acordos com os governos vizinhos. Estabeleço meus pactos. Eu fecho minhas fronteiras.
E ainda assim os homens
(os intermináveis homens)
(os incansáveis homens)
(os homens)
tentam me tomar de golpe.
Mesmo quando eu penso que estabelecemos relações diplomáticas, eles (os homens) querem guerrear.
Porque eles
(os homens)
não aprenderam a conviver pacificamente.
Eles
(os homens)
disputam tudo.
E confundem
amor com guerra.
Ou melhor,
eles
(os homens)
fingem que não sabem a diferença
entre guerra
e amor.
E machucam quando dizem que amam.
E amam machucar.
Porque abrindo feridas
abrem espaços
para se infiltrar
e fazem nunca parar
de doer.
