CEP
Cresci numa rua onde florescia um pé de jambo. Gostava quando o chão ficava rosa das flores da árvore e temia os morcegos que dormiam nas folhagens entre os jambos maduros. Passava a noite por debaixo dos longos ramos do jambeiro cobrindo o pescoço com as mãos, temendo morrer ou virar vampiro. Depois descobri que muitos poucos morcegos são carnívoros e menos ainda são vampiros. O pé de jambo era um paradoxo de beleza e terror e eu cresci sob suas folhagens.
Quando eu nasci, na minha rua já havia pelo menos um louco. Isso também foi importante para minha constituição poética. Porque numa rua de casas, como é a minha, é importante haver loucos e cachorros. Pouco depois do louco da rua falecer, quem enlouqueceu fui eu. É importante manter certas tradições. Hoje somos pelo menos cinco numa rua de trezentos metros e não há nenhuma criança na rua para aprender a poética excessiva da loucura.
Quando eu era menina, muitas crianças habitavam minha rua e ela era prenhe de futuro. Hoje tenho quase trinta anos e as casas estão se esvaziando. Temo que tudo vire farmácia ou prédio comercial. As lojas começam a se infiltrar entre as casas, expulsando os moradores, fechando pós horário comercial, sem que nenhuma velha ponha a cadeira sob suas calçadas e fofoquem sob a luz trêmula dos postes que falham a cada quase três meses.
Houve uma época que houve como que uma infestação de gatos. Eram tantos e tão pequenos que se infiltravam no teto, as gatas faziam amor barulhento na madrugada silenciosa, e os gatinhos se escondiam dentro dos motores dos carros e era preciso checar o carro antes de ligar. Havia se se ter muito cuidado para não matar uma criatura que queria somente se esconder.
Hoje não existe mais pé de jambo e a rua é vista desnuda sem suas ramagens para fazer sombra no meio do caminho. Hoje há menos beleza e magia. E há o risco do poste em frente de casa desabar. As coisas todas estão se acabando. O tempo, que eu achava, quando criança, que traria beleza e sabedoria, na verdade destrói tudo. E os meus ídolos de infância estão mortos ou velhos demais para replantar jambeiros ou carregar postes nas costas.

Por favor seja minha amiga vc é incrível
Tcha cabrunco que texto lindo da gota