Casa de fêmeas
Nasci em berço de mulher. Em casa somos sete. Em breve seremos oito. Aprendi a ser bicho com as minhas ancestrais.
Minha avó, forjada no barro e calor do interior, foi muito pouco menina. Logo cedo perdeu a mãe e aprendeu a ser mulher com as avós. Vivia no meio do mato com o irmão e uma baladeira. Era criatura franzina, perna grande, barriga lisa, pele branca. Minha avó foi mãe antes de parir porque teve de cuidar dos irmãos. Desde cedo aprendeu sobre cuidado, mas também a dificuldade forjou casca. Ela é bicho de exoesqueleto. A pele alva é armadura. Minha avó vence um batalhão de homens. Minha avó é um exército de uma mulher só. Já passou por mil traumas e ainda hoje se sustenta e encosta os joelhos no chão para rezar.
Minha tia me ensinou que amor é ação. Prática diária. Amor, mais que palavras bonitas, amor é um gesto concreto no mundo, muda vidas. Foi a primeira da família a cursar federal. Inaugurou o mundo do ensino superior na família Cunha. É bicho de língua ágil, cabeça acelerada. Não deixa nada sem resposta e me ensinou a ter humor.
Mãe é coisa cara. A minha tem uma bondade quase infantil. A todo mundo ela dá a mão, a face e a outra face. Foi com ela que entendi o que pode ser Deus, alguém bom como ela. Só acredito que Deus existe porque no mundo há minha mãe. E se uma criatura pode ser tão boa, tão cheia de perdão, tão absolutamente amável, Deus deve existir para ser melhor.
Minha irmã é o mais próximo que tenho de ídolo. Não admiro ninguém como a ela. A inteligência, o sentir que é sempre absoluto, a vontade de sempre ser melhor.
Minhas quatro grandes mães são elas. Cada uma, a seu modo me tornou o que sou.
Eu, a mais bicho de todas, ajo por instinto, tenho garras, boca de presa, afiada. Eu, errada, aprendo com os acertos das minhas ancestrais que iluminam meu caminho com a luz de suas existências.
Bicho mais fera que fêmea, me faço no mundo com amor pelas minhas semelhantes e nutrindo uma raiva muito profunda que alimenta o germe de uma revolução.
Tenha calma.
tenha calma.
Calma?
É tempo de uivar.
