boca cheia
nunca soube metrificar um poema.
nunca soube sentar de pernas cruzadas.
nem aprendi a rezar o credo.
não sei falar baixo e falo de boca cheia.
às vezes encho a boca de ódio e falo.
mastigo fel e ódio e cuspo sentenças.
faço competições de cuspe comigo mesma
e vejo quão longe minha palavra pode chegar.
revolta-me o preço a da cesta básica,
o valor do salário mínimo,
o meu país ser o país que mata travestis.
revoltam-me os teatros vazios,
o fato de que jogaram dois coquetéis molotovs
em um morador de rua.
revoltam-me os cães feridos pela ira infundada dos homens,
a necessidade das crianças de dez anos estarem nos sinais
para ter o que comer.
eu mastigo ódio, um ódio denso contra o mundo
que não me desce pela garganta.
eu regurgito ódio e me sai como um grito.
o mundo faz muito barulho e ninguém consegue me ouvir.
insisto, insisto porque dói.
insisto porque adolescentes se ferem na internet,
porque mães vendem as filhas para homens adultos,
insisto porque sou teimosa e não desisto.
eu maturo o ódio, fermento a revolta,
uma hora vão comer quente todo meu rancor.

Sem saber bem o que comentar mas não querendo deixar passar esse tapa que você me deu em branco ❤️🔥❤️🔥❤️🔥