Amo-te
Amo-te com minhas unhas, que percorrem tua carne e levam mili pedaços de você. Recolho os teus fragmentos mínimos de epiderme e guardo para que um dia te forme de novo por inteiro, caso você me deixe. Mas você nunca vai me deixar, porque certos erros são para sempre. A bicicleta, a alfabetização, o amor.
Amo-te com minha língua que decorou cada nota gustativa sua e sabe onde é salgado e onde é doce na tua carne. Lambo teus lábios como quem tem sede e medo de morrer por demasia. Degusto-te com vontade e cuidado. Você tem o mesmo gosto do primeiro picolé da minha vida, você tem gosto de bolo de aniversário dos sete anos, você tem gosto de mar nas férias de julho num domingo de manhã. Você tem gosto e medida da minha fome.
Amo-te com meus olhos, que são os únicos que tenho. Que leem poesia e decoram a luz refletida em você pela janela que é paralela a tua cama. Os meus olhos que viram os quadros de Van Gogh, o imenso das serras, o eclipse solar quando eu era menina e o dia se fez noite, esses mesmos olhos se embaçam ao te observar tranquilo, como um bicho selvagem em repouso. Esses olhos se encantam com o milagre da sua criação.
Amo-te com meus pés, que caminharam vinte nove anos de minha vida sem rumo, que agora sabem o caminho da sua casa e são felizes. Meus pés, que deitados na cama ao seu lado, encontram repouso e por um momento fingem que não existem, porque o corpo todo relaxa estando com você.
Amo-te com meus medos. Com o medo do escuro e da morte, e sobretudo o medo de que a vida te faça infeliz. Amo-te com minhas angústias, que são enormes, e com a aflição de ser criatura pouca. Seu amor me torna maior. Amo-te com meu um metro e sessenta e com a sensação de maciça ao seu lado.
Amo-te porque a vida toda aprendi muitas coisas e todas elas parecem colidir para essa razão de te amar.

Que declaração mais linda 🥹🥹