1500
Quando viram a terra pela primeira vez,
depois de 44 dias ao mar,
os homens pensaram ver o paraíso.
Avistaram uma costa coberta de verdes árvores,
o imenso mar azul se encontrando em areia branca,
o cheiro de terra e maresia misturados no ar.
Os portugueses, doentes e sedentos de terra firme
babaram sob a nau sonhando com os pés firmes no chão.
Na areia, os povos nativos sem conseguir ver o navio,
porque não sabiam enxergar aquela massa de madeira e velas,
porque não tinham referência para aludir a imaginação.
Portugueses e indígenas experienciando uma espécie de milagre.
Estes presenciando o início de uma dizimação sem saber,
aqueles experienciando o poder dos homens doentes.
Eles, os brancos, trocando espelhos por vida,
os indígenas se vendo pela primeira vez
sem conseguir prever seu extermínio.
Quando se olha muito para si mesmo
pouco se prevê do futuro.
O ensimesmamento leva a cegueira.
A mata, silenciosa, já sabia,
pela comunicação das raízes,
que o fim estava se aproximando.
Foi a primeira árvore cortada que contou.
O jambeiro de minha rua sabe da dizimação do meu país
pela comunicação secreta das árvores,
que contam lendas de geração
para geração
e não deixam esquecer.
O Brasil foi tomado de assalto.
